domingo, 18 de junho de 2017

Essa tal felicidade sempre clandestina

Esse é o título de um livro de Clarice Lispector. Passei anos sem entender ao certo o que era exatamente isso, quando aos quase 46 anos, constato que toda felicidade é clandestina. Podemos entender que clandestino é todo aquela que  entra sem ser autorizado e, costuma a sair sorrateiro sem denunciar sua condição. A felicidade assim o é.
Há dias em que acordamos com uma invasão de felicidade injustificada. Uma sensação de "tudo-vai-bem" que a gente, acostumado a essa ausência se pergunta: o que vai bem? E se questiona, às vezes, que toda felicidade é alienante. No fim, esquece de curtir aquela sensação clandestina que invadiu nossa alma. Tenho medo que tenhamos desaprendido a ser felizes.
A felicidade também mora na memória. Muitas vezes, recordamos uma viagem, um encontro, um amor, umas palavras que nos fazem assomar enorme sensação de felicidade. Essa também é clandestina, mas que chegou porque, voluntariamente, deixamos as portas abertas e dissemos: olha, está aberta a porta. Se quiser dá uma passadinha, fica à vontade.
Outro dia, me peguei com as portas da memória abertas de uma viagem recente e a felicidade não titubeou, entrou pelos olhos, deu um pulo no coração, me inundou e vazou pelos olhos em que entrou. Porque felicidade é assim: quando volta senta me mesma cadeira que deixou vazia.
Por isso é preciso estar atento, desperto, pois, muitas vezes, não percebemos sua entrada perdidos na correria do dia a dia e se o fazemos, abandonamos a oportunidade de permitir que ela nos revisite em formas de momentos. Acordei assim, com as portas semiabertas e ela entrou enquanto dirigia (ela nunca escolhe hora para isso) e fui tomado de um prazer imenso. Deixei-a entrar, permiti que mostrasse imagens, histórias, músicas, gestos que um dia me fizeram muito feliz. E fui feliz de novo..
Precisamos aprender a lidar com essa tal felicidade, essa desejada clandestina que entra não sei quando, fica não sei onde e sai não sei por quê...
Por via das dúvidas, pelo menos eu, sigo com a porta entreaberta caso ela passe por aqui.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

É preciso saber pontuar o coração...

Relacionamentos são como textos que escrevemos. Misturamos gêneros, mas predomina o dissertativo argumentativo em que buscamos responder a tese de por que estamos envolvidos emocionalmente. Fazemos uma introdução em que apresentamos o relacionamento, desenvolvemos os argumentos em parágrafos e fechamos a conclusão do texto retomando os tópicos desenvolvidos.
Mas importante mesmo é saber pontuar. Há relacionamentos que recebem um ponto final e encerram a ideia. Outros recebem vírgulas e nos deixam com a sensação de que a frase não acabou. Alguns trazem dois pontos e sabemos que algo vai ser dito e ainda não foi. Algo vai ser enumerado, aí vem uma lista. Os de ponto e vírgula são angustiantes, pois não vai ser dito nada, mas alguma série de coisas vai aparecer daqui a pouco. Coisas boas ou más? Não sei.
Os travessões criam a iminência da fala... travessões são ideais quando os olhos se cruzam e as bocas não conseguem reter o que vai ser falado. Nesse momento, sempre se espera algo, menos a indiferença.
E por fim os relacionamentos de exclamação. Não esperávamos e eles nos surpreendem. É impossível um relacionamento de exclamações sempre, mas uma exclamação de vez em quando faz tanta falta que sua ausência acaba remetendo a um amor de reticências...  E se perde no vazio do que não foi dito.
Amores de interrogação são cheios de vírgulas também. Nós nos perguntamos se devemos prosseguir, se acabou mesmo, se não vou me arrepender depois ou se vou me arrepender de ficar agora... enchemos esses amores de vírgulas. Nesse caso, melhor mesmo é deixar que o tempo pontue para nós.
Ele jamais irá colocar pontos finais em frases que não foram concluídas.

domingo, 7 de maio de 2017

Saco de versos

Instante
Valença, 05 de dezembro de 2016


Eu quero o agora.
Não quero amanhã, mais tarde...
Não sou dono instante.
O tempo que me pertence é agora...
instantes depois não mais é minha posse.
Não quero me afogar nos segundos que não bebi.


Quero a palavra de amor
Quero o gesto de afeto
Quero o toque das mãos
Que durem esse instante
Porque esse é de fato meu...
... agora não é mais.


Mas aí vem outro é mais outro
O sangue pulsa no ritmo dos instantes que não me pertencem
Quando os consigo fitar


Dentro do peito
Só guardo comigo e de fato meu
O meu último instante
Esse sim, meu, preso, encarcerado
Definitivo.

O ponto final das angústias de todos os instantes que não consegui capturar.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Viver é a arte de se reinventar a cada curva

Nunca estamos prontos. Na vida, somos sempre uma obra inacabada. Quando pensamos que os planos estão todos traçados e que somos um carro preparado para percorrer todo um caminho sem maiores percalços, vem uma curva e nos joga para fora para lembrar que não existem estradas sem curvas, que não se formam bons motoristas em estradas tranquilas. E de fato, estamos aqui para nos formarmos como bons condutores. Enfim, a curva é necessária.
E daí, nós nos inventamos novamente e traçamos outra trajetória, construímos outro carro e amparando-nos em nossa resiliência. Superamos a dor, as perdas e retomamos a estrada até encontrar outra curva que nos jogue para fora porque a única coisa que é certa, nessa estrada, é a curva. Mas sempre dirigimos como se fosse uma eterna reta.
Viver é isso. É se reinventar curva após curva. A grande aprendizagem dessa jornada é se reinventar quando tudo acaba, quando a gente termina.
Quero crer que toda dor, toda aprendizagem nos conduz a um caminho único que é o do aprimoramento espiritual, que toda dor realmente vem do desejo de não sentirmos mais dor um dia. A dor pela qual optamos é produto da nossa ânsia de não mais senti-la. (Estranho, né? Mas faz sentido) Estar vivo é isso, um exercício masoquista em busca da libertação. Mas a dor, assim como a curva, é inerente a estrada. Sempre existirá.
Então, que a vida não nos poupe da dor, mas que com ela nos traga a sabedoria. Porque sofrer é inevitável, mas aprender é uma opção. E que vida nos traga as suas curvas.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Crônica de um dia nublado

Sim. Eu gosto de dias frios, dias nublados e morosos. Penso que eles são um convite a refletir sobre a vida. O calor, o sol, o movimento das coisas nos iludem com a sensação de que tudo vai bem lá nos mais recônditos cantinhos da gente, tudo flui, a vida segue seu ritmo furioso e inexorável. Nesse momento, esquecemo-nos do lugarzinho onde moram as coisas em nossa alma,  onde repousam nossas dores que, ainda que fiquem escondidas no sótão de nossa existência, ficam lá e esperam os dias frios, nublados e morosos.

Dia frio é dia de rasgar papel, trocar livros de lugar, achar objetos perdidos escrever crônicas. Dia frio é dia de se achar. Apropriada seria um crônica que começasse assim: “Um dia, em um dia nublado e frio, adivinha quem encontrei escondido dentro de mim? Eu! Vejam só, não me encontrava há tanto tempo que achei que havia me perdido…

Pois então, se tem uma coisa gostosa, essa coisa é ficar em casa em dia frio, ver um filme, ler um livro, repousar a cabeça no colo de quem sem ama, falar amenidades, rir de pequenas bobeiras… E quando der uma leve sonolência, deixar as pálpebras caírem como suaves cortinas de uma janela. Todavia, admito que dias frios não são tão legais com aqueles que ainda buscam sua JukeBox Gêmea, sua Playlist do Spotify gêmea… (Isso é uma longa teoria que desenvolvo sobre o fato de ser mais fácil conviver com uma pessoa que tenha um gosto musical parecido com o seu). Mas isso é para outro texto. O fato é que dias frios são sempre dias frios, sempre bem vindos aos contempladores da alma.

***
Enquanto escrevo, na minha lista de músicas, um canto gregoriano toca bem baixinho, escrevo, penso, vasculho meus baús, degusto um dia nublado de sexta-feira santa que desde que nasci foi amadurecido e preparado para ser consumido hoje, mais de 45 anos depois.

Esses momentos são assim, feitos para serem degustados. Escolha o que mais lhe agrada, com que se harmoniza mais e beba até a última gota porque depois do copo vazio, aquele ali você não bebe mais.


Bom dia nublado a todos!