terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Beija-flor: da miséria africana aos dentes de ouro de Auschwitz

O título desse post poderia até ser enredo de escola de samba... E de certa forma é.
Sempre foi claro desde o princípio dos tempos que não se pode servir a Deus e ao dinheiro ao mesmo tempo. É também claro e nítido que, nessa terra, se serve mais ao dinheiro do que a outra coisa qual seja ela. E aí, surge o horror de saber que a escola de samba Beija-flor recebeu 10 milhões de dólares da Guiné Equatorial, um país marcado por miséria, violência, exploração sexual, desrespeito aos direitos humanos, guerra de tribos, ou seja, "degustando a versão gourmet" de tudo que temos de podre na nossa espécie. O desfile foi bacana e com um tom realista, pois trazia um leve odor de desigualdade. Mas desigualdade, a gente já conhece o cheiro e está acostumado.
A Guiné Equatorial é um dos maiores produtores de petróleo do mundo, mas com um dos piores IDH do planeta (144º lugar, segundo a ONU). Riqueza mal distribuída e concentrada na mão de pouquíssimos (políticos, é óbvio). Segundo órgãos internacionais, menos da metade de população tem acesso à agua potável e 1 em cada 5 crianças morre antes de completar 5 anos. O país tem um governo autoritário que viola direitos humanos, civis, políticos, enfim, todo tipo de direito. É considerado por organizações internacionais como um dos países com mais casos de trabalho escravo e exploração sexual no mundo. Enfim, a antessala do inferno, no carro de abre alas.
De outro lado, temos a Suíça (3º IDH do planeta). Eles não têm petróleo, não tem mar, não tem ouro (deles pelo menos), não têm grandes tecnologias dominantes no planeta como os EUA, Alemanha ou Japão, nem grande mercado consumidor como a CHINA. Enfim, não têm nada que os fizessem ter o dinheiro que têm. Com a Suíça nos vem à mente a ideia de relógios precisos, chocolate de boa qualidade, montanhas com neve e homens bonzinhos vestido de verde e cantando uma musiquinha que nos faz lembrar pagamento (oleriteeeee....).
Entretanto, eles descobriram (como o pessoal da Beija-flor) que dinheiro é dinheiro desde sempre e resguardam desde os primórdios a imoral neutralidade útil (são amigos de Deus, mas também são parceiraços do Diabo) e com isso, as contas secretas (numeradas) que permitem que todo o dinheiro podre do planeta flua para lá e seja protegido por eles, drogas, corrupção, tráfico de gente, trabalho escravo, venda de arma ilegais, roubos de toda sorte e maneira. Os dentes de ouro arrancados das bocas de judeus e ciganos em Auschwitz viraram cifras e talvez ainda repousem nos cofres suíços sob o sigilo de suas leis. Por que implicar com o dinheiro dos nazistas se somos neutros, diriam eles. "Tragam seu dinheiro para cá, meine freunde"
Pois é isso... sempre valeu a máxima bíblica de que não se pode servir a Deus e ao dinheiro, mas ingênuo é quem acredita que ainda se tem dúvidas a quem servir nessa terra de expiação.
Em momento algum estou justificando a história de a Beija-Flor aceitar dinheiro da Guiné Equatorial, ainda mais se tratando de escola de samba (como outras tantas) que já teve seu nome associado à contravenção e outras fontes financeiras ilegais. Estou só dizendo que nada há de novo sob esse sol. Sou humano e nada do que é humano me é estranho (Terêncio). Acho imoral, mas não me surpreendo com minha espécie.

Que o desfile, então, seja entendido como um réquiem para aquela 1 criança em cada 5 que morreu antes de completar 5 anos, de fome, de doença, de guerra, de toda forma de violência onde as cores da avenida refletem a antessala do inferno.


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