segunda-feira, 14 de março de 2016

O texto, o contexto e a má fé

Certa vez, eu conversava com um colega sobre literatura e falava do quanto admirava obras de alguns autores como Nelson Rodrigues. Ele torceu a cara e disse, Nelson Rodrigues é um machista. Fiquei surpreso com a afirmativa, pois pensei que a contextualização do autor era óbvia. Ao que eu completei que sim, que ele era machista, inclusive que Monteiro Lobato, provavelmente, era racista, que Wagner (compositor) era antissemita (Nietzsche também...) e que a bíblia era homofóbica no velho testamento (ainda mais se você focar em Levíticos, um livro escrito no século XV a.C...) Ah sim.. e que Zumbi talvez tenha tido escravos. E qual o problema de se ter tido escravos no século XVII?
Pois é... Retirar o texto e o fato de seu contexto é a maneira mais cruel de não se entender nada e sair propagando sua bela consciência social que o torna o melhor dos seres humanos que já pisaram na terra. Ah sim... E se recusar a acessar a ler o livro por causa da capa.
Se a capa não reflete o que acredito, ele não presta. Não quero nem ler. Não li e não gostei. 
Se olharmos de perto cada um dos exemplos, veremos que Nelson Rodrigues retrata uma sociedade machista de classe média de subúrbio carioca do metade do século XX. Esperar um pensamento libertário e feminista é um pensamento de uma ingenuidade comovente.
Monteiro lobato nasceu em 1882 (quando ter escravos era normal e publicou o conto Negrinha em 1920 - país pós-escravagista muito recente). Pensamento racista era quase um senso comum naquela época. 
Na parte da bíblia em que se encontra uma interpretação claramente homofóbica, também se encontra comentários machistas. Mas, pelo amor de Deus (literalmente), é um livro escrito há mais de 3300 anos...
E, por fim, Zumbi talvez tenha tido escravos por razões óbvias. Ele era um líder tribal. Lutava, conquistava, ganhava espaço e dominava outros que poderiam ser negros ou brancos. Era assim na época dele. Aos olhos do homem de hoje, uma aberração, aos olhos de sua época, parte do modus operandi.

É claro que, ao contarmos essas histórias, sempre deve haver um parêntese de contextualização para que não se legitime uma argumentação com base na referência histórica. Mas isso, creio eu, ser uma conduta razoável a TUDO que se apresenta como cultura e história.

A conclusão que se pode tirar é que a leitura de descontextualizada é algo movido pela ignorância no sentido de desconhecer a relação texto-contexto ou pela má fé que alimenta um vitimismo desnecessário que acaba por desmerecer grande causas como a luta contra o racismo, o machismo e outros ismos que vão se esvaziando do devido valor que devem ter na busca da redução das desigualdades sociais.

Obs.: Comentário típico dos mimizentos a "mas você tem que ver que há pessoas que não tem essa visão e usam isso... [para, para, para] Acreditem! Há pessoas que são capazes de tudo e não é sua opinião que vai mudar isso. 
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