segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Nós educamos uma geração incapaz de ouvir


Aqui fica um mea culpa (expressão latina para se assumir responsabilidade sobre algo) perante todos. Oficialmente nesse ano, após mais de 22 anos de magistério, percebo que a minha geração deixou um torpe legado a geração que nos sucedeu: a incapacidade de ouvir.
Nascemos numa geração (anos 70) em que aprendemos que tínhamos que nos policiar ao dizer algo, pois havia coisas que só poderiam ser ditas entre as 4 paredes de sua casa. E mesmo assim, carecia ter cuidado, pois até as paredes tinham ouvidos e uma discordância política poderia acabar em problemas significativos.
Na década de 80, com o fim da ditadura militar em 1984 e a eleição, ainda que indireta, de nosso primeiro presidente civil desde João Goulart aprendemos na escola que era importante começar a falar, pois já não mais havia problemas. Vivíamos em uma democracia. Podíamos falar o que quiséssemos. Daí que seríamos ouvidos era outra coisa (mas pelo menos não seríamos presos.. isso já era uma conquista). 
Então, xingamos o governo, xingamos os políticos, alguns de nós se tornaram radicais revoltados (agora poderiam ser sem problemas) e depois, quando começaram a pagar as próprias contas na década de 90 e anos 2000 foram obrigados a rever fortemente alguns pontos de vista. A realidade foi cruel com todo mundo e eu, pessoalmente, jamais a perdoarei por isso.
Dizemos tudo aquilo aos adultos de hoje (crianças na década de 90) no passado porque achávamos que era um grito de liberdade, uma maneira de mudar o mundo. Mas nos esquecemos de dizer a eles que ouvir é parte crucial do processo.
Conclusão: formamos pessoas que cultuam suas verdades absolutas e o direto de impor aos outros essa verdade. Querem determinar o que é bem, o que é mal, do que se pode rir e do que não se pode rir. Tentam recriar quase uma novilíngua (1984 - George Orwell). Não sabem e não querem ouvir, pois os professores na escola de ensino médio e faculdade (olha nós da geração de 70 aí que demos aulas para eles nos anos 90 em diante) lhe mostraram o caminho, a verdade e a luz. E eles só enxergam salvação do mundo dentro disso.
Educamos uma geração que reclama para si todos os direitos, mas entende toda forma de dever como um mecanismo opressor do sistema. Educamos uma geração que acha que o mundo tem obrigação de aceitá-la como ela é, mas exige que ele as pessoas mudem para melhor se acomodar a ideias delas.
Gritam contra o autoritarismo, mas no fundo, boa parcela não quer o fim disso. Quer é trocar de lado. Levantam a bandeira do consenso e do diálogo, mas articulam para impor a vontade de um grupo sobre o outro e elegem como inimigos todos os que destoam do seu bem "pessoal" comum. Há um bem maior sobre o qual devemos agir para que prevaleça. Isso assusta.
E essa geração chega para fazer o papel que fizemos há mais de 20 anos atrás. Eles têm convicção de que são maduros e já perceberam tudo que era para ser percebido em termos vida. Trazem uma arrogância e prepotência como a que tínhamos antigamente. Mas nós, a geração 70, também caímos nesse mesmo equívoco e eles repetem as lições tortas que demos e das quais hoje (pelo menos eu) nos arrependemos imensamente.
Quando ouço esse discurso que chamo de um museu de grandes novidades (Cazuza), me vejo há duas décadas atrás. Não sinto indignação como alguns colegas, não sinto pena, não sinto nada, além de um desejo lá no fundo de pedir desculpas pelo que fizemos com eles.

Mas os erros deles de hoje são os mesmos nossos de ontem, são de cada geração e eles precisam viver isso como nós vivemos.




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