terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Central do Brasil e o país de escrevedores


“Digo isto porque tenho medo que, um dia, você também me esqueça...”
Dora, personagem de Fernanda Montenegro no filme Central do Brasil.

Outro dia revi Central do Brasil e penso como é que não foi daquela vez que trouxemos o Oscar para Brasil... Para mim, é a obra de arte do nosso cinema, sinal de amadxurecimento nessa arte jamais visto antes.
Entretanto, ele é o ponto de partida de uma série de reflexões sobre o país que temos e o país que queremos. Central do Brasil foi a grande demonstração de amadurecimento do cinema brasileiro, mostrando que dos arroubos do Cinema Novo, das inovações e óticas engajadas de Júlio Bressani e Glauber Rocha entre outros, brota um cinema maduro, bonito e sensível que constrói a apresentação de nosso perfil cultural ao mundo de maneira clara, lúcida e cada vez menos estereotipada (Não tem mulatas sambando de biquini, homens jogando futebol, baianas rodando a saia e vai por aí).

Mas o que mudou na face do Brasil de Glauber e Júlio para o Brasil de hoje? Bom, Dora e Josué ainda são a cara do Brasil. Milhões de brasileiros ainda vivem afundados no analfabetismo e distanciados dos bens de consumo da sociedade. Ainda não temos os rostos bonitos e bacanas das novelas das oito. Estamos mais para Central do Brasil do que para a fábrica de sonhos da Globo. Para início de conversa, falta, no Brasil, um programa educacional sério que vise à formação do usuário da língua em primeira instância. O ensino fundamental ainda se confunde em seus objetivos e, em meio ao despreparo dos profissionais, entende que dar aula de português é falar de “regrinhas” e suas exceções.
A primeira visão que devemos ter do nosso idioma não é a imensa lista de regras com as quais, muitas vezes, nos inundaram a cabeça na escola. Estudar a Língua Portuguesa é dar ao falante o manejo da língua escrita (e, obviamente, oral) a fim de habilitá-lo a exercer sua plena cidadania.
Nunca entendi, por que toda tentativa de ensino efetivo da norma culta de nossa língua começa pelo soterramento do indivíduo com regras que por si só assustam. Afinal de contas, a gramática é feita em função do uso e não o contrário. Fala-se, por vezes, na formação do leitor, entretanto, é muito difícil gostar de ler se as aulas de português não são momentos de incentivo à leitura e à produção dos próprios textos.
Não estamos falando, necessariamente, da leitura de livros, mas de qualquer texto que deveria ser trazido para a sala. Obviamente, que tragam consigo a semente da reflexão e da formação da consciência crítica. Músicas, avisos, leis, textos de jornal, material de revistas, publicidade, tudo escrito em língua portuguesa é válido. Que a língua simples das ruas, da realidade do aluno seja trazida para a sala de aula, não para ser ensinada (mesmo porque, essa ele já conhece), mas para amparar a reflexão sobre a norma culta que se origina, creiam ou não, dela.
Não acredito que seja possível ensinar português sem cruzar o universo escrito da norma culta com a realidade oral do aluno. Todo ensino que não leve em conta esse cruzamento de universos linguísticos é uma ode à alienação. O ensino de português sem a língua em formas de textos ou sem o uso do universo oral é a repetição dos erros já apontados e condenados no ensino da língua materna.
Mesmo correndo o risco de cair no lugar comum, ainda assim, como Dora, digo isto, diariamente, a meus alunos, talvez, porque, no fundo, tenho medo de que não levem a sério a mensagem e, fatalmente, me esqueçam. Por fim, que o milênio que se inicia seja o milênio da consciência, da leitura, da reflexão. Uma Era de cada dia menos de Josués e escrevedores.
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