segunda-feira, 12 de abril de 2010

Tragédia no Rio - solidariedade rimando com oportunidade

Quando acontece uma desgraça anunciada como essa das chuvas no Rio de Janeiro, as TVs se apressam em mostrar o lado bom das pessoas, a solidariedade, a mão amiga (sic) e, por alguns instantes, até chegamos a acreditar que as pessoas realmente se redimiram de toda a sua maldade e indiferença com relação ao próximo. Saramago define o ser humano assim: metade maldade, metade indiferença e, logo no início do livro Ensaio sobre a Cegueira, um homem ajuda o outro que acabou de ficar cego e, quando se assegura de sua cegueira, aproveita para roubar-lhe o carro. Essa é a metade do ser humano que nos deixa com saudade da indiferença.
A tragédia que se abateu sobre o Rio foi palco disso tudo. Alguns hotéis (dos medianos aos cabeças de porcos) elevaram seus preços ao máximo para poder ganhar com aqueles que não conseguia ir para casa por causa dos alagamentos, alguns vendedores de água potável, alimentos e demais produtos do gênero aumentaram o preço de seus produtos ao topo do possível para ganhar com a impossibilidade de deslocamento. Enquanto isso, entre os escombros se acumulam policiais, bombeiros, pessoas em busca de parentes, pertences e outras tantas pessoas se valem da situação de caos para tomar posse do que está sujo de lama, mas que guarda algum valor venal.
Esse é o ser humano. 
Lembro uma vez que presenciei um acidente de caminhão e, enquanto o veículo se encontrava virado e o motorista sangrava, uma horda de miseráveis se apressava em catar a carga de latas de cerveja que havia tombado... o homem sangrava e o cheiro de óleo se espalhava com o de cerveja no ar. 
Ecce homo.... eis o homem que me deixa com saudade da metade indiferença de nossa espécie.

7 comentários:

Eduardo Montanari disse...

Pois é, recentemente vi um desabafo do famoso dublador Guilherme Briggs, que mora no rio. Disse que os taxis passaram a cobrar o olho da cara por uma viagem curta e que se recusavam a ir em determinados pontos da cidade.
Ele foi pedir ajuda para um taxista, dizendo que a família dele estava ilhada num posto de gasolina e não conseguia sair de lá. A resposta do taxista?
"Foda-se se a sua mulher e a sua sogra estão ilhadas no posto". Então fechou o vidro e foi embora.

Mulher de Fases disse...

Acho que não sou humana....Socorro que eu quero descer!

Luisa L. disse...

Marcelo,

É triste, mas espelhaste muito bem a natureza humana. Essa é a natureza dos "bons".

Abraços
Luísa

Edu Sangion disse...

Tem um som do Ed Motta com uma frase que passa desapercebida para a maioria, mas que carrega uma tremenda verdade.
"...o mundo é fabuloso, ser humano é que não é legal..."

Ludmila disse...

Sabe que eu ainda tenho esperança?! Acho que por isso escolhi ser professora... ainda me permito acreditar.
Não discordo de você - até porque não sou cega, nem doida (eu acho) -, mas penso que ainda podemos plantar sementinhas que renderão bons frutos. ^^/

Namastê disse...

Ludmila, Edu, Luisa, Eduardo M. (...)
Sinto que muitos de nós realmente estão aqui de passagem, com suas missões, tão solitárias e muitas vezes difíceis de encarar. Não perco a esperança, no amor. Eu dou meu amor com toda minha verdade. Quem conseguir enxergar e despertar, uma semente. Sou professora de Auto-escola e Educação Física e do mais importante para mim, do amor. Isso tudo me choca muito. Sinto imensa vontade de fechar-me para não me ferir. Porém a vida é o misterio, a ternura, e aceito com violência aquilo que me permite continuar.

Keila Bergone disse...

É por isso que necessitamos de Deus, porque sem Ele somos totalmente miseráveis.