quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Presidente ou presidenta? Dilma será o quê?

Alguns órgãos oficiais, que nem de longe podem ser denominados autoridades para falar sobre Língua Portuguesa, se apressam em emitir as opinões mais estapafúrdias possíveis se valendo em argumentos que, longe de embasarem a teses, provocam risos nos estudiosos do idioma.
O fato é que presidente é um substantivo cujo gênero pode ser definido como Comum de Dois, ou seja, prestam-se a definir tanto ao sexo masculino como feminino mudando-se apenas o seu dêitico (artigo ou pronome que o antecede). Seguem estes exemplos palavras como dirigente, assistente, pedinte, contribuinte, presidente entre outros casos. Todos esses casos se assemelham em sua formação por serem compostos por um radical verbal (dirig-, assist-, ped-, contribui-, presid-) mais o sufixo –nte que indica aquele que exerce a ação de algo.
Dessa forma, não existe o termo presidenta, assim como não existe o termo assistenta, contribuinta, dirigenta, pedinta e outros. O fato de Dilma ser a primeira mulher presidente do Brasil não justifica a flexão já que outras mulheres foram dirigente, assistente, pedinte, contribuinte e nem por isso se fez necessária a flexão nominal de gênero onde ela não existe.
Mais uma vez, pipocam pessoas emitindo opinião sobre assuntos que desconhecem ou sobre o qual sabem muito pouco. O grande problema com relação à língua é exatamente esse, muita gente acha que, porque fala, sabe sobre ela.

Veja bem, eu, por exemplo, tenho dentro de mim um monte de órgãos que uso todos os dias, mas não me considero um especialista em nenhum deles e me sinto desconfortável em emitir opiniões técnicas sobre os mesmos.

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Em razão de alguns comentários agressivos, quero deixar claro que não me revoltei com o resultado das eleições, que não tenho nada contra Dilma Roussef, mas que gostaria de suscitar uma questão lingüística e não política. Sei que esse tema (política) mexe com paixões e resguardo-me o direito de publicar comentários que se atentem à discussão lingüística.


Prof. Marcelo Leite
Doutor em Língua Portuguesa pela UFRJ

11 comentários:

Beth Muniz disse...

Oi Marcelo,
Mais que gramatical ou algo que relação com a língua portuguesa (Brasil), a simbologia envolve esta questão. A mensagem que se quer transmitir é de que pela primeira vez, o Brasil terá mulher na presidência da república. Significa dizer que em mais de quinhentos anos o mais alto cargo do executivo do país não está sob o domínio masculino. Está é uma abordagem que tem como conteúdo a questão de gênero.
Quanto aos dicionários, vale ressaltar que o mundo muda, a língua e linguagem mudam, e não me espantará (aliás, é meu desejo) que em breve esta linguagem simbológica torne-se de fato real, fazendo jus a mais da metade da população que elegeu uma mulher presidente.
E para aqueles que insistem em afirmar que não importa se teremos na presidência um homem ou uma mulher, eu afirmo: Importa e é um diferencial.
Penso que se for para evoluir, devemos ser menos conservadores.
As coisas estão no mundo para serem aperfeiçoadas e até mesmo mudadas.
Certas regras devem ser quebradas para incorporar novos conceitos.
Um abração.

marcela (arlequinal) p. disse...

A maioria das vezes em que vi alguém se referindo a ela como "presidenta" havia um certo tom pejorativo.

Guizo Vermelho disse...

De fato, mas depois de quatro (quem sabe oito!) anos chamando d. Dilma de "presidenta" a palavra vai cair na regra de que o uso faz a língua.

O Aurélio já se rendeu: a "presidenta" já reina por lá.

Marcelo disse...

Ah sim.. o uso faz a norma. O que ponderei acima é uma questão meramente técnica de morfologia. Também acredito na alteração da norma em função dessa nova realidade.
Abs

Andréia disse...

Muito antes de elergermos uma mulher para o cargo de presidente do Brasil, o termo "presidenta" já exista na língua portuguesa.
Não existe nenhum erro em tal pronúncia. É importante lembrar, que a língua portuguesa é viva e, portanto, suscetível as alterações de pronúncia.
Os princípais livros e estudiosos sobre a língua portuguesa apontam nessa direção. Sobre o assunto, estes links,são muito interessantes e fulminam quaisquer dúvidas restantes:

http://www.priberam.pt/dlpo/default.aspx?pal=presidenta
http://colunistas.ig.com.br/poderonline/tag/evanildo-bechara/
http://www.correiodeuberlandia.com.br/texto/2010/11/01/49057/presidente_ou_presidenta.html

Marcelo disse...

Sim, Andréia. Concordo. Mas por que não usamos o termo assistenta, gerenta e dirigenta para nos referirmos a mulheres que ocupam esses cargos.
A lógica de formação dessas palavras é a mesma. O que questiono é falta de critério mesmo.

Beth Muniz disse...

Andréia arrasou!
Marcelo, não resista... rsrsrs
Por favor, não reduza a importância do evento histórico que é a eleição da Dilma, a critérios ou falta deles.
A resistência masculina, e em certas situações também feminina, ao uso do termo presidenta, deve-se muito a aceitação histórica do domínio masculino na política.
Obrigada Andréia. A partir de agora usarei o termo sem pudor. O seu uso, o do termo, dará um corte de gênero à questão, e apontará sensíveis mudanças culturais.
Para arrematar: Dilma Presidenta! Rsrsrsrs
E mais, vou guardar os links para usar como rebater e dialogar preciso for.
Um abraço para você.

Marcelo disse...

Pois é.. eu concordo Beth. O que eu não entendo é a discrepância de critérios. Persiste a pergunta: Quando se referirem a ela como dirigente do Brasil, dirão dirigente ou dirigenta? A lógica é a mesma entendeu?

Dirão representante ou representanta do país?

Rodrigo disse...

Marcelo, concordo com você em gênero e número! Vi que anda faltando coerência em alguns comentários. O que acha de fazer um post sobre 'Coesão/coerência'. Seria útil p/ uma parte da clientela.

Abraços, amigo!
Rodrigo R.

Marcelo disse...

Rodrigo,

É uma excelente ideia. Mas tem hora que, sinceramente, bate uma preguiça de explicar...rs
Mas eu supero a preguiça.
Valeu.
Abs

Andréia disse...

A meu ver essa alteração ocorreu apenas com o termo "presidente" por uma questão social, diante da posição da mulher no mercado do trabalho.
A meu ver a intenção é conferir mais autoridade às mulheres quando ocupaem esses cargos, Afinal, não é nenhum segredo o preconceito e a discriminação que as mulheres sofrem no mercado de trabalho.
Além do que, por óbvio quando o termo nasceu na língua portuguesa, não existia nem sequer a possibilidade de se ter uma presidenta.
Quanto aos demais termos, dirigenta, por exemplo, as mulheres ainda não conseguiram alterar. Mas elas chegam lá rs