domingo, 11 de abril de 2021

Nosso cérebro é nosso maior cúmplice

Temos na gente nosso maior cúmplice e acusador, nosso cérebro. Quando algo desagradável nos acontece, de imediato, ele vai achar um culpado que, normalmente, tende a não ser você. Outro dia, percebi o quanto, por mais que eu embarque em uma viagem de autoconhecimento há um bom tempo com meditação, leituras e discussões, ele ainda está tão forte e "palpiteiro". Acho que a diferença é que agora eu o "vejo", ouço e reconheço sua voz.

Peguei um pote, a tampa soltou. Ele logo me falou: poxa, fulana tinha que deixar solta a tampa? A culpada é fulana que deixou a tampa solta. Se a tampa estivesse fechada e se soltasse, ele diria: poxa quem fabrica um pote cuja tampa abre tão facilmente? Se a tampa não estivesse com esse "probleminha", ele completaria: se eu não tivesse que fazer tudo com pressa agora.. Enfim, o resultado final é o mesmo: açúcar espalhado sobre a mesa. Mas o responsável nunca somos nós que pegamos o pote e o removemos de sua inércia, é sempre o outro que deixou a tampa frouxa, o fabricante, a pressa que nos impuseram… E esquecemos que, se tivéssemos feito tudo com atenção e foco ao que estávamos fazendo, reduziríamos os danos ou mesmo não haveria dano. Nós fomos o gatilho do evento e abafamos isso focando em dividir a culpa com outros. Fica menos pesado assim.

Isso acontece por duas razões: primeiramente, temos dificuldade em assumir que somos, de uma forma ou de outra, responsáveis (como gatilhos) pelos eventos que são disparados e nos atingem. Enfim, fizemos algo que nos colocou na trajetória dos eventos. Não é o conceito de culpa (acho inócuo esse conceito em grande parte dos eventos), é ser parte do processo, obviamente sem intenção muitas vezes, mas cruzamos as trajetórias com alguma decisão. Buscamos corresponsáveis para alimentar nosso desejo de ser paciente e não agente de histórias com final trágico. Em segundo, lugar, nosso corpo ocupa um tempo no espaço e nossa cabeça outro. Normalmente, este está à frente daquele. Fazemos as coisas pensando no vamos fazer ou no que fizemos, ou no que deveríamos ter feito em um evento e não fizemos. Pensar o que deveríamos ter dito e não dissemos em uma discussão é uma das coisas mais inúteis que podemos fazer. Um desperdício de energia vital irreversível.

A melhor conduta para assumir o estágio consciente da sua existência é entender que, de uma forma ou de outra, você, em algum momento, é responsável por uma decisão que lhe coloca em trajetória de colisão com um evento. Nesse momento, você está tomando decisões conscientes ou inconscientes que estão lhe colocando nessa trajetória. E quanto a isso há duas verdades irrefutáveis: não tem como fugir das escolhas, não tem como fugir dos resultados. Até não escolher é uma escolha que gera resultados. Inevitável. Aprenda a lidar com isso.

Povoar a mente de pensamentos de ações passadas que não foram feitas e ações futuras que ainda não foram feitas vai gerar um desgaste imenso para encontrar os responsáveis pelos infortúnios do presente. A melhor ancora existencial que há é o presente. É importante planejar, sonhar, se preparar, mas ter em plena consciência que o resultado disso não existe (ainda) e, apesar de tudo que você vier a fazer, talvez possa nunca existir. 

O que existe, na verdade, é o momento em que você abre o pote. O resto não paga o açúcar derramado que precisa ser limpado da mesa. 


domingo, 4 de abril de 2021

Não estamos no comando de quase nada

Isso para não dizer de nada mesmo e arruinar suas esperanças de uma vez. Estar vivo é não estar no comando de quase nada. Planejar não faz o menor sentido então? A resposta para isso é SIM e NÃO. Nós planejamos para saber onde mudar, mas planejar esperando que todo o universo conspire a seu favor é alimentar a frustração eterna em uma relação de troca que não existe. Você pode planejar tudo perfeitamente, mas um contratempo que acontecerá 1 minuto após ler esse texto mudar tudo. Aliás, mudar toda a sua vida.

Pronto. Joguei um balde de água fria em toda sua expectativa que os livros de autoajuda conspiraram para formar durante décadas em você como essa de um universo que conspira a nosso favor. Não. O universo não tem um acordo com você. 

Temos aqui o conceito de carma que precisa ser um pouco ajustado não para uma ideia de quem promove uma boa ação gera uma boa ação ou que uma má ação gere resultados nocivos para si. O que ocorre é que o fluxo das coisas no universo segue uma trajetória com vários fatores interveniente que não controlamos. É claro que uma boa ação, uma conduta honrada e digna lhe coloca numa trajetória em que as possibilidades de algo dar muito errado é bem reduzida, mas, lembre-se, isso não o torna jamais imune ao infortúnio. Afinal, ele atinge o ímpio e o justo, não é? O universo não barganha. Entenda sempre isso

Planeje e trace caminhos dignos, mas não espere receber o cordão da imunidade que lhe livrará de todos os males. Não. Não é assim que banda toca e entender isso é assumir que o bem que fazemos ou os planos que traçamos são nossos e não do universo. Quase 100% das boas ações e dos planos que fazemos ocorrem dentro da gente e não fora. E não queira que o mundo faça parte dos seus projetos, uma vez que, por mais que compartilhe com os outros, eles são, no fundo, só seus.

Somos só um humano vivendo dentro de um corpo humano em um universo com mais 7 bilhões de pessoas vivendo dentro de só um corpo humano cada um. Entendeu? Viu como é complicado se todo mundo tiver que ser cooptado pelos projetos alheios. Eu sei... É claro que existem projetos coletivos, mas por trás de todos os projetos coletivos há projetos individuais de existência. E isso não é ruim... isso é humano.

Dessa forma, planejar é uma maneira de gerir a sua existência com uma sensação mais segura (que não pode ser dispensada) de que algo segue sob controle, pois, o sentimento de estar feito pipa ao vento retira-nos a segurança e estabilidade emocional tornando-nos escravos do contexto (ainda vou falar sobre isso aqui). A zona de conforto é o nosso lugar de sonho. Apesar do discurso coach motivacional de que temos que sair da zona de conforto. A verdade é que praticamente ninguém quer largar seu emprego que o remunera justamente e lhe dá segurança para vender artesanato na rua… sem saber se o dinheiro que ganhou hoje paga o almoço de amanhã ou o lugar para dormir. O desconforto existencial, a incerteza absoluta (afinal tudo é de certa forma incerto) causam um desgaste absurdo no ser humano e reduzem a qualidade de vida. Pode ser romântico o largar tudo... mas são pouquíssimos que querem e menos ainda os que conseguem isso.

É claro que há exceções. Sim, elas existem. Mas de quantos estamos falando em 7 bilhões de pessoas? Convenhamos que essas exceções nem de longe configuram um mínimo padrão humano. O fato é que buscamos um certo controle de que nos próximos tempos teremos o que comer, onde dormir, onde ser tratado caso fiquemos doente, enfim, buscamos a zona de conforto para os próximos tempos mesmo sem saber se teremos os próximos tempos. Afinal não estamos no controle de quase nada… Lembra?

O que nos resta então? 

Resta localizarmo-nos no tempo em que estamos. No tempo da respiração, no tempo do batimento cardíaco, na pausa momentânea em que percebemos que estamos vivo. Coisa rara para a maioria das pessoas. Nesse momento, planejamos, desenhamos, avaliamos, mas depois de dada essa concessão, retornamos ao presente que, no final das contas, é a única coisa palpável que temos. Muitas pessoas vivem tanto no futuro que sofrem por coisas que talvez nunca venham a viver. Sofrem por um mundo que talvez nunca exista ou mesmo que nunca exista daquela forma.

Temos para nós, na verdade, um presente efêmero, quase imperceptível, fugaz, mas que verdadeiramente, é a única coisa que a vida nos permite acessar. Então... respire.

domingo, 28 de março de 2021

Escravos de nossas escolhas

O fato é que o caminho que nossa vida toma seja ele bem feliz ou uma desventura absoluta é resultado de nossas escolhas. (imagino que seja duro ler isso quando nessa altura da vida já encontramos todos os culpados que precisávamos para nos isentar de responsabilidade). É claro que, diferente do que querem alguns resumir a condição do homem ao meio em que ele cresceu e as regras da sociedade em que vive, uma reedição infantil do determinismo, somos sim, resultados de nossas escolhas e onde estamos é o resultado de um monte de caminhos que optamos.

O que, de forma alguma, descarta que as escolhas foram movidas por interferências do meio, do momento, de nossa criação, das pressões sociais, sim. Mas nossa história não deixa de ser resultante de uma escolha nossa. Dizer que não temos escolha é uma das maiores falácias do reducionismo comportamental. O que não estamos dispostos é bancar a opção preterida por inúmeros motivos, dano maior, desgaste, desinteresse, imediatismo etc.

Acontece que uma escolha cria cenários e momentos que acabam influenciando (eu disse influenciando e não determinando) nas outras escolhas que se seguem. Lembra da série Breaking Bad? Quem assistiu vai lembrar. As escolhas de Walter White começam a se interligar em contexto e relações. Em um momento, quando se espera que ele vá fazer um discurso de vitimismo do tipo fui impelido pelas circunstâncias, sou uma vítima do sistema, fiz isso porque envolvido em representações sociais que me impeliram a blá, blá, blá… Ele olha nos olhos de sua mulher e diz: sabe por que fiz isso? Por que eu quis. A seguir, ele explica porque ele quis.. item por item.

Mas aí é que está o nível de dignidade e lucidez do personagem. Ele assume as rédeas de sua história e diz: estou nesse lugar porque ele é o resultado de minhas escolhas que, por conseguinte, são o resultado do meu livre arbítrio. Ele poderia ter dito, eu fiz isso porque me sentia diminuído, fracassado, porque tinha câncer, porque queria dar uma vida de fartura a minha família… Mas não. Eu fiz isso porque eu quis. Eu fiz por mim. Assumir um certo egoísmo e a responsabilidade é de uma dignidade e hombridade quase divinas e extremamente raras.

É exatamente isso. Isso é assumir-se por completo e dizer que o seu destino (bom ou mal) é de alguma forma diretamente um resultado das suas escolhas. Onde você está é parte do caminho que você traçou até aí. Quem te traiu, te roubou, te prejudicou, tentou te destruir era parte desse caminho. Tem a cota de responsabilidade deles e você se tivesse escolhido outro caminho haveria outras pedras, não essas, mas outras. Não há caminhos sem pedras.

Todos travam uma batalha pessoal e, independente do caminho, haverá momentos de escolha e as escolhas nos direcionarão a um conjunto de escolhas em uma cadeia infinita que pode ser quebrada, mas obviamente não é simples. Nunca é fácil essa ruptura nem resolve o problema das pedras no caminho e em outras escolhas. Não existe saída desse Samsara, esse ciclo de morte, renascimento… e escolhas.

Sem receita de bolo, sem soluções mágicas, somente com a percepção de que não há como fazer dar certo, porque não existe o certo nesse caso. Há caminhos e encará-los como eles são e nos assumirmos como responsáveis por estarmos ali é a maneira mais saudável de doer menos. Sim. Sempre vai doer, a dor pertence ao mundo, mas nem sempre vai ser sofrido, porque isso já pertence a você. Doer vai, sofrer é você quem escolhe.


***

Hesitei em escrever esse texto porque de certa forma soa acintoso contra tudo aquilo que encontramos na nossa vida para colocar culpa e atribuir nossos fracassos. Inclusive os meus fracassos e os meus culpados devidamente eleitos e embasados em uma lógica impecável e pessoal.


domingo, 21 de março de 2021

O que te ofende de fato?

Existem, no mínimo, 3 EUs na gente que precisam afinar sua convivência: quem eu sou, quem eu penso que sou e quem as pessoas pensam que eu sou

Hoje, as pessoas alimentam as redes sociais com um marketing contínuo para fazer com que o terceiro EU adquira força, o quem pensam que sou. Esse EU é politicamente correto, socialmente engajado, sensível e que tem uma vida no instagram abençoda por Deus… O fato é que, atualmente, há uma conduta obsessiva em vender quem nós queremos que os outros pensem que somos. Isso não é uma crítica, é uma constatação. Afinal cada um sabe de si, cada um sabe onde o sapato aperta.

Mas tudo isso nasce no que pensamos que somos. Na verdade, a imagem que temos do que pensamos que somos. Não. Não somos necessariamente aquilo que queremos que os outros pensam que somos, aquilo é o marketing. Quando estamos conosco, normalmente, o dia todo, nos conhecemos além das postagens. Nas coisinhas do dia a dia, nos nossos atos, nossas decisões, nossas palavras nos mostram parte do que somos e parte do que pensamos que somos. Muitas vezes, violentamo-nos em nossas decisões para agradar os outros… É isso. Aquele ali é o que pensamos que somos. Não somos aquilo.. Aquilo é um misto do que pensamos e do que queremos que alimente aquilo que os outros pensam sobre nós.

No primeiro caso, pagamos um preço por viver um personagem para alimentar um EU fake para nós mesmos e em segundo perdemos a dimensão de que agindo nesse intuito não temos necessariamente o resultado que esperamos. Podemos nos "violentar" 99 vezes para alimentar nosso marketing, mas se falharmos (não atendermos a expectativa do outro) 1 vez, seremos julgados pela falha não pelo conjunto da obra. Diga 99 sim, mas não esqueça que o pode definir seu julgamento pelo outro será um Não que disse.

Costumo dizer que as pessoas só precisam de uma coisa para que você seja odiado, que você exista. Logo, não deixe que o que você pensa que é nem o que deseja que os outros pensem assumam o comando das decisões que movem sua vida. 

E lá no fundo da gaveta, está o EU que você é. Humano, demasiadamente humano que age de acordo com seus interesses, movido por seus anseios (muitas vezes causando repulsa e repreensão dos outros EUs)... Esse EU nada tem a ver com o conceito freudiano de ID. É só um EU legítimo, porém sociável, mas cheio de defeitos, que te critica, que te ofende, que deprime, que o faz se sentir ora fracassado, ora um Deus… Esse Eu é o seu maior amigo e o maior cruel inimigo... esse eu é você mesmo. 

A dor que temos quando nos ofendem chamando de inconsequente, irresponsável, limitado, desonesto, provém muito mais do arranhão que causam nos outros dois EUs do que nesse terceiro, que chamaremos de o EU de FATO. Esse, ouve, ignora quando é mentira ou se cala quando é verdade como se alguém lhe anunciasse o óbvio. A ofensa só reverbera quando ameaça os EUs que vendemos aos outros, inclusive a nós mesmos porque temos medo que mais pessoas (inclusive nós) se convençam daquilo com que nos atacam e desconstruam o que construímos todos os dias com atitudes que contradizem nossos desejos ou com toneladas de fotos nas redes sociais. Anos e anos e trabalho montando um outdoor do que queremos que vejam… Aí vem a indignação com a ofensa e muitas vezes gastamos tempo de vida contra-argumentando com uma pessoa que sabemos não ter o menor controle do que ela  (nem ninguém) pensa sobre nós… podemos falar dias e dias que, se ele não quiser acreditar, vai continuar na mesma. E nós? Bem… Nós perdemos tempo de vida com absolutamente nada e para nada… porque, muitas vezes, sabemos (lá no fundo) que ficamos procurando argumentos para demonstrar o que sabemos não ser verdade mesmo.

O EU de FATO não se ofende nunca porque ele sabe realmente quem somos e que as críticas se dividem entre o óbvio e a calúnia. Ambos inócuos no papel de construir o que de fato ele é.  

A grande busca consiste em encontrar esse EU de FATO, sentar com ele e o assumir com todos os defeitos e qualidade que ele tem, ouvir o que tem a dizer e se aceitar como um ser cheio de imperfeições e que realmente não possui controle sobre o que vão pensar de si independente de o que quer que se faça. 

A grande viagem nossa se dá para dentro de nós. Que se torne um hábito sentar para tomar um café com nosso EU de FATO e entender um pouquinho mais desse que mora dentro de nós e nos faz humano.. demasiadamente humano. Menos escravos do pensar alheio, mais íntegros e verdadeiros.

 

domingo, 14 de março de 2021

Uma desculpa para chamar de sua

Outro dia, quando estacionei o carro na rua, um rapaz todo arrumadinho se aproximou com um isopor cheio de bombons e disse: bom dia, o senhor quer comprar um bombom que eu faço. Pode provar um, se não gostar não paga. Normalmente, na pressa e correria que vou à rua, digo "não, obrigado. Estou sem trocado." E, normalmente, estou mesmo porque pago tudo com cartão e ando com muito pouco dinheiro em espécie. Mas nesse, por alguma razão, tinha dinheiro em mãos e comprei 3 por 5 reais. Ele agradeceu e se foi para o próximo cliente em potencial.

Por uns instantes, viajei na ideia de que aquele bombom na minha mão era o símbolo da ruptura da inércia de uma pessoa. A verdade é que 99% das pessoas, diante de uma situação financeira precária se preocupa mais em arrumar uma desculpa do que uma solução. Obviamente, uma desculpa que as coloque como vítimas, uma vez que ser vítima é a posição mais cômoda em que se pode estar. Ou seja, tudo que acontece de ruim comigo é culpa dos outros, afinal, como dizia Sartre "o inferno são os outros". 

O fato é que aquele rapaz, um dia, aprendeu a fazer bombom, comprou os ingredientes, fez de véspera, colocou na geladeira… No dia seguinte, colocou no isopor frio, se arrumou e passou o dia oferecendo, oferecendo, oferecendo... Ouvindo não, sim, eventualmente, alguma indelicadeza. E na sua bolsa, muitas vezes mais cheias de não do que de sim, volta para casa o dinheiro que o mantém, paga suas contas e preserva sua dignidade. 

O problema é que a maioria das pessoas sonha com a maldita desculpa e, nisso, culpa o governo, a economia, a pandemia, o mercado local, a falta de sorte, a impossibilidade pessoal, algum parente que deveria ajudar porque está em melhor situação, culpa o clima, o passado…. Enfim, culpa tudo para justificar porque não rompe sua inércia.

Em casa, comi o bombom e pensava nisso. Aquele cara conseguiu romper as correntes que mantém milhões de pessoas presas na caverna do vitimismo. Ele se tornou protagonista da sua própria vida. Fala-se tanto em empoderamento atualmente, mas são muito poucas as pessoas que conseguem se empoderar do próprio destino… Preferem seguir de pipa voada botando culpa no vento de onde caem.

***
Sim. O bombom era muito gostoso.

domingo, 7 de março de 2021

A medida de felicidade de cada um

Aprendi que a medida da nossa felicidade é inversamente proporcional ao tanto de "coisas" que precisamos para ser feliz. Às vezes, eu via uma pessoa que tinha uma situação muito mais complicada do que a minha financeiramente, vivia uma instabilidade constante e resumia sua vida a um final de semana tomando cerveja e ouvindo pagode com uns amigos no bar.

A primeira sensação que eu tinha era me perguntar como é que uma pessoa pode colocar a cabeça no travesseiro e saber que amanhã pode não ter recursos mínimos para comer, morar, viver e que sua vida é demarcada pelo final de semana com a cervejinha e o bar. Eu logo pensava que era um alienado, um inconsequente… mas vi que não era bem assim.

Aos poucos comecei a entender que eu incorria em dois grandes erros: medir o mundo por mim e, segundo, achar que o futuro dele era mais incerto que o meu só porque tenho uma provisão financeira, um equilíbrio que me garante moradia, bens, confortos que o dinheiro dá nos dias que se seguiam. Eu só não conseguia garantir é que eu teria mais dias seguintes do que ele. E aí é que são elas… nos igualávamos em uma coisa: de certo, só temos o momento em que estamos.

Medir o mundo por si é um equívoco comum. Pensar que fulano não é feliz porque mora de aluguel é partir do princípio que sua felicidade está atrelada ao fato de ter uma casa. Mas uma casa é uma coisa que não está em você, está fora. Logo, você está vinculando que só será feliz se algo que está fora de você acontecer. Só que felicidade é algo que acontece dentro da gente e não fora. Podemos ter a casa e seguirmos infeliz, podemos não ter a casa e seguir infeliz… Entendeu? Ter a casa, pode ter dar um tempo de satisfação, mas isso nunca deve ser considerado felicidade.

Felicidade é um conceito que só faz sentido se entendermos como algo tangível ao momento em que vivemos. Se for sempre a cenoura do cavalo amarrada na frente dele, pode ser tudo, menos felicidade e vai ser o fator desencadeador de uma ansiedade constante que impede de ver qualquer momento sutil de real felicidade.

O segundo equívoco é imaginar que temos mais tempo do que o outro para usufruir de tudo que planejamos hoje. Eu disse em outro texto que a vida é uma viagem sem plano de voo, no escuro e a gente não sabe quanto combustível tem nesse avião. Bem, é isso mesmo. Achar que seremos beneficiados pelo fruto de nossa trabalho e planejamento é uma ilusão. 

Isso não é uma ode a viver de forma inconsequente, muito pelo contrário. É um convite a se planejar, trabalhar, mas não esperar demais. Toda vez que esperamos demais geramos um nível de ansiedade que consome nosso instante e tiramos exatamente a felicidade do instante. Passamos por coisas boas e que podem nos fazer felizes naquele instante sem nos darmos conta, cegos pela ansiedade do que esperamos que, possivelmente, nunca vai chegar. 

Aprender a viver o momento é um exercício diário. Como sugestão, fica um exercício: pare, feche os olhos, preste atenção a cada respiração sem se obrigar a nada. Deixe os pensamentos vagarem, quando vier um deixe passar. Não rechace, não expulse, deixe passar e volte para a respiração. Faça isso até perceber o coração batendo. Não precisa ficar muito tempo assim.. só o suficiente para perceber o momento. 

Que, no final das contas, é  única coisa que você tem mesmo.

De verdade


domingo, 28 de fevereiro de 2021

Acumuladores de coisas, de histórias e de si mesmo

Existe um grande embate quando falamos em lidar com pessoas acumuladoras. Eles são chamados de loucos, sem noção, materialistas, enfim, batem pesado naqueles que têm dificuldade de se desfazer de objetos adquiridos. Mas antes de qualquer coisa, é importante entender o que é um acumulador, porque ele acumula e como ajudar a pessoa que sofre desse distúrbio. Sim.. é um distúrbio comportamental.

De uma forma ou de outra, acumulador, todos somos um pouco. Guardamos fotos, objetos etc porque coisas são mais do que coisas, são narrativas e, nós, humanos somos feitos de carne, osso e narrativas. Somos todos uma história contada a partir de diversas histórias. Os objetos entram na nossa vida junto com histórias que os trouxeram até nós. A história de cada um deles se agrega a nossa fazendo a grande narrativa que nós somos. O problema é quando não percebemos mais o que é história, o que é objeto, o que somos nós... 

Quando o foco da vida sai do presente e se ancora no que vivemos, objetos e narrativas se integram na mesma coisa, que somos nós. Desfazer-se de um objeto é desfazer-se de uma história que é parte do que você é. É como se fosse abrir mão de um pedaço de si mesmo, um dedo, um braço… e deixar de ser alguém inteiro fisicamente. No caso, psicologicamente. O acumulador vê  a perda do objeto como uma amputação. E acreditem, dói nele.

Primeiro, é importante entender que as pessoas são o que são e lidar com elas é único caminho da convivência saudável. É muito provável que um acumulador de verdade não mude nunca diante do drama psicológico de não conseguir dissociar o que é ele dos objetos. Você não vai conseguir dissociá-lo da história que ele construiu, mas conseguirá fazer com que a partir do momento em que você entrou na vida da pessoa, o que existe de relevante não está nas coisas adquiridas, mas nas histórias vividas e que, mesmo que a coisa se vá, as histórias ficam.

Isso costuma funcionar? Não. Mas vale tentar. Não existe receita de bolo para lidar com as pessoas. As pessoas são o que são e nossa grande frustração pode ser a eterna luta entre isso e o que queríamos que elas fossem. Por mais que sejam boas as nossas intenções, a vida é um eterno aceitar o real (e lidar com ele) ou sofrer com o ideal (e frustrar-se). 

Ficou frustado em chegar até aqui e ver que não dei uma receita de bolo para lidar com o acumulador? Pois é… Viver é assim, não existe manual, seguimos em um voo cego, sem plano de voo num avião que não sabemos quanto de combustível ainda tem.


sábado, 6 de fevereiro de 2021

"Aí é totalmente diferente"... O que isso significa?


A comunicação é um processo que se dá entre alguém que quer se fazer entender e outro que quer entender. Esse é princípio básico expresso por H.P. Grice quando começa a falar sobre comunicação. Se um dos lados falhar, não existe comunicação. Existem duas pessoas falando para si mesmas. Isso não é comunicação.

Vivemos um tempo em que os únicos argumentos bons são aqueles que servem para provar aquilo que cegamente acreditamos e, se os fatos contradizem os argumentos, há algo de errado com os fatos. Exclua-os

Um exemplo é a falácia ad lapidem "Aí é totalmente diferente..." Normalmente, essa falácia encerra uma discussão com as reticências porque em 99,9% das vezes não vêm a explicação de por que razão é "totalmente diferente". Até porque a razão é: "porque esse argumento não me serve para mostrar por que você está tão errado e eu estou tão certo". E se tem uma coisa que as pessoas mais odeiam do que não ter dinheiro ou saúde é não ter razão. Abrir mão da razão é um desapego que só chega muito tardiamente com a maturidade.

As pessoas desaprenderam a troca ideias e a preocupação mais básica hoje é ouvir (quando ouvem) o outro para  mostrar o quanto o outro está errado. Em momento algum, cogita-se a possibilidade de que, talvez, haja algo interessante na argumentação do outro e que deva ser levado me conta na maneira de pensar uma questão. Os diálogos, viraram, na maioria das vezes um campo de batalha para o vencedor erguer o seu troféu de palha e gritar para o mundo que venceu uma discussão no facebook ou em outra rede social.

Vencer uma discussão em rede social, por exemplo, é como ficar milionário... jogando Monopólio, o nosso Banco imobiliário.

Aí, aqueles amantes dos bate-bocas vão dizer... não... "Aí é totalmente diferente...""

É... réplica esperada.



sábado, 30 de janeiro de 2021

Eu, na promoção

As redes sociais não trouxeram nenhuma novidade quando se trata das carências ou das mazelas humanas (como queiram chamar...). Elas só amplificaram o que sempre existiu. Aquele cara que gostava de contar vantagens em rodas de amigos, mostrar como era feliz e bem sucedido ainda existe, só que dessa vez, ele só precisa postar. Não precisam marcar um churrasco. Ele não precisa mais nos encontrar para fazer seu marketing. E isso, penso eu, poupa-nos da convivência. Gosto disso...

Entretanto, as pessoas, hoje em dia, sentem uma necessidade absurda de fazer da sua rede social uma vitrine onde se colocam como produto mais bem sucedido (férias em praia, resorts, corpos malhados, dirigindo carros etc), como o melhor exemplo da evolução humana (pessoas comprometidas com causas, que se doem com a dor do outro o tempo todo...) Vendem-se como um espírito em um nível de evolução que Chico Xavier olharia e pensaria: quando crescer quero ser igual a esse cara

O problema é que, em um mundo em que impera a obrigatoriedade do sucesso e do politicamente correto, para ser do bem o tempo todo, o caminho mais curto (e, às vezes, único) é convencer os outros disso. Certa vez, eu li que o que vale não é o que somos, mas o que as pessoas pensam que somos. Essas pessoas acreditam nisso mesmo e tem um monte de gente que conhecemos bem pessoalmente, mas quando olhamos sua rede social pensamos: gente, será a mesma pessoa? Dá vontade de dizer: olha não quero mais ser seu amigo real, quero ser amigo virtual só do seu perfil na rede social.

Não há mal nenhum postar sua vida nas redes socais e dizer como você é bem sucedido, consciente e do bem. Postar algo que te faz feliz é bem legal. O problema acontece quando as redes sociais se tornam um alter ego seu, aquilo que você queria ser ou ao menos, aquilo que você queria que os outros acreditassem que você é. As postagens se tornam repetitivas e diárias e acabam despertando a inveja dos que não te conhecem bem e, muitas vezes, o sentimento de tentativa engodo para os que te conhecem bem.

Somos humanos, demasiadamente humanos. Lotados de defeitos com respingos de algumas qualidades que nem de longe disfarçam nossa imperfeição inata. O marketing de teclado alivia esse sentimento, mas a realidade nos obriga a conviver com ele. Não sei mesmo até que ponto eu quero conviver com o que queria ser para não ter que conviver o que sou. Acho menos desgastante (mas não menos dolorido) lidar com o que sou do que despender vital energia para manter uma imagem do que queria ser. O fato é que a maioria das pessoas não se dá conta disso. Mas tudo bem também... E la nave va... 

Fecho com a Zélia Duncan na música Carne e Osso: "Perfeição demais me agita os instintos / Quem se diz muito perfeito / Na certa encontrou um jeito insosso / Pra não ser de carne e osso, pra não ser." Demorei quase meio século para me habituar a conviver com quem eu sou, embora ainda descubra facetas novas a cada dia e, agora não abro mão disso.

Até porque, nem se quisesse conseguiria abrir mão... O que somos é a única coisa que levamos até para o túmulo.