quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Trocando de lugares

É muito complexo entender onde o desejo de justiça e igualdade proclamado por grupos ideologicamente engajados se confunde com ressentimento e desemboca em vingança contra outra classe. Olho isso com cautela sempre. Parece-me que é da natureza humana a ideia de promover no outro a mesma dor que nos impingiram como se essa dor aplicada ao outro aliviasse a nossa e nos reparasse de alguma forma. Acho que é essa a lógica da pena de morte.

Quando crianças e tomamos um tapa do colega, apressamo-nos em dar outro. Isso não é defesa, é agressão. E quando o colega nos diz não doeu, apressamo-nos novamente em dar outro mais forte até que doa. Isso é um sentimento primitivo de impingir mais dor do que nos foi impingida com a ilusão de se fazer justiça.


O que já vi até aqui é uma sequência de oprimidos por ocasião que quando têm a oportunidade conduzem a mais cruel das opressões sobre os que lhes oprimiam. A história do mundo é cheia desse casos. Até aqui o que vi não é um desejo latente de fim da opressão, mas uma vontade de trocar de lugares. Nesse quase meio século de vida, vi chefiados que reclamavam da tirania de chefes, para quando assumirem sua posição como chefe, se tornarem os mais sádicos tiranos. Obviamente, antes do poder, o seu discurso era o de igualdade, respeito, diálogo, construir algo juntos, legitimidade etc que desaparece por completo obscurecidos pela droga do poder.
Um exemplo dessa troca de lugares, eu tive quando fui diretor acadêmico de uma instituição de ensino superior e lidei com alunos de vários cursos, entre eles, medicina. No geral, eram garotos e moças legais de se lidar, mas o problema que tínhamos com eles era a banalidade com que encaravam o trote aos calouros. Tivemos que intervir inúmeras vezes, pois se tratava de rituais de violência e humilhação inimagináveis. Certa vez, vi o caso bizarro de um aluno que queria receber trote e ao lhe perguntar o porquê, ele me explicou que é porque no ano seguinte, quando fosse veterano, ele faria os calouros passarem o inferno na mão dele. Ele queria legitimação para o ato de ser pior do que aqueles que o humilhavam ali. Fiquei perplexo, mas entendi uma faceta da natureza humana que até então me era incompreensível.
As pessoas também eram movidas por um forte desejo de ser o opressor, de impingir a dor, muito mais do que acabar com a opressão, de interromper o ciclo de barbárie.

Outro dia, vi um ativista bradando na TV que não queria só os seus direitos, mas que os que tinham direitos antes perdessem-nos, pois não bastava a justiça, era necessário que os outros sentissem na pele o que eles sentiram. O ressentimento das ideias ultrapassava o sentimento de justiça e era maculado pelo desejo de vingança. Ali, ninguém queria o fim da desigualdade, mas a perpetuação da mesma a seu favor.

Percebi como o ódio é um sentimento forte e como move muitas pessoas como uma droga do prazer. Talvez até mais do que o amor... Para muitas pessoas, odiar é quase uma razão para viver. Mas ninguém admite isso abertamente... é feito e politicamente incorreto ter ódio.

Lembrei de trechos de Maquiavel que ainda ecoam na minha mente.



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