quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Tretas no Face: um espelho da nossa vaidade

A medida da certeza das nossas ideias é proporcional ao desinteresse que temos de convencer os outros de que estamos certos. Explico. Quanto mais eu tenho certeza de alguma coisa e essa alguma coisa está bem resolvida na minha cabeça, todo discurso de convencimento é uma perda de tempo, ainda mais quando a outra pessoa não está disposta a ouvir (entenda ouvir como parar, pensar, relacionar, entender...)
Muitas vezes, o discurso de convencimento é movido por duas coisas: a falta de convicção sobre o que se acredita e sobre a vaidade de se mostrar superior ao outro. A ideia em questão e os valores que carrega são irrelevantes contanto que espelhem algo que solidifique o que ainda não está 100% seguro para mim ou que coloque o outro em uma condição intelectual inferior a mim. Havendo plateia então, essa segunda hipótese brilha com intensidade.
A convicção verdadeira sobre o que cremos (um misto de reflexão somada com nossas experiências de vida) nos coloca numa posição de ausência total de necessidade de convencer. Quando muito, falar sobre o assunto trocando ideias. Mas trocar ideias é uma via de mão dupla e na outra ponta deve ter alguém propenso a lhe dar algo que some à reflexão. Que, mesmo discordando, saiba ouvir e interpelar de forma construtiva.
Mas é a vaidade que mais move as "tretas" (como dizem meus amados alunos de ensino médio). Reside ali o desejo resumido de mostrar não só ao seu discordante o quanto ele está errado, mas o quanto você é superior em ideias, em ideais, o quanto você é mais racional. Enfim, é como se subisse em um palco do Rock 'n Rio, por exemplo, e gritasse: olhem como eu sou fodão e como quem discorda de mim é um merda!
A coisa funciona mais ou menos assim no Facebook. Mas na verdade, a ideia é que funcione assim mesmo.
Costumo dizer que uma maneira de se saber o grau de convicção que temos em nossas ideias reside naquele momento em que ouvimos alguém falando um coisa completamente divergente do que pensamos. Fazemos uma observação para abrir uma outra vertente da discussão, a outra pessoa se arma e se firma nas suas posições. Se naquele momento, perdemos todo o interesse de discutir e tentar fazer a pessoa mudar de ideia é sinal de que aquela ideia está bem resolvida na sua cabeça.
No mais, bater boca é, na maioria da vezes, um esforço para se convencer de algo através do outro ou a mais escrota manifestação de nosso narcisismo e necessidade dominar.

Ah sim.. Você discorda de tudo que eu disse. Pois é. É assim mesmo. Que bom, né, que as pessoas discordam, concordam ou nem dão corda? 
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