sábado, 5 de março de 2011

O inusitado do inusitado, colocando toda uma geração a perder

Minha profissão me traz coisas interessantes e quando acho que já vi de tudo, sempre tem um pouco mais para se ver. Quando acho que esgotou o repertório de coisas esdrúxulas, eis que vem sempre mais uma. Sou professor e diretor em uma instituição de ensino superior. Lido com alunos de diversos níveis sociais e origens e o que mais me chama a atenção é como estamos educando uma classe média alta que chega aos cursos para aqueles de maior poder aquisitivo.
Encaram jogar tinta e intoxicar um colega que vai parar no hospital como normal, uma brincadeira. Veem como uma farra saudável (sic) passar fezes e urina com água de esgoto na cara dos calouros, pois é assim mesmo que se faz com quem entra. Acham bacana ameaçar alunos novos de agressão exigindo dinheiro... Acham a barbárie normal e parte da sociedade. Roubar e extorquir é parte da tradição.
Entender isso demanda entender a origem desses alunos. Não é raro o caso de pais que vem aos diretores pedir o que se pode fazer pelo seu filho que ficou reprovado porque apesar de só estudar e ter dinheiro dos pais à vontade, além de, normalmente, um carro novo, não consegue fazer com o mínimo de decência e dignidade a única tarefa que lhe compete na vida, naquele momemnto, e ficam reprovados ou em dependência. Entendo isso como algo ligado a duas razões: falta de caráter, pois não dá valor a oportunidade que tem ou burrice mesmo. Qualquer uma das duas o deveria excluir do lugar que ocupa.
Já vi situações de pais que foram atrás de policiais para oferecer dinheiro para não autuar os filhos por algum crime num insensato ato de demonstração de que a lei é para o pobres, a eles, filhos do dinheiro, tudo pode. Essa é a elite de nosso pais, os futuros médicos, dentistas, veterinários.... Lamentavelmente, assisto a essa nau de insensatos impotente, com a depressão dos que veem as coisas rumarem para o pior dos caminhos.

7 comentários:

Pinheiro disse...

Excelente!! Concordo em número, gênero e grau!!

Enô disse...

Professor, o pais desse jovens estudaram e passaram por isso, será que suas lembranças foram apagadas por excesso de dinheiro ou isso virou mesmo uma tremenda falta de vergonha?
A educação pode fazer algo em relação a isso? ou são as famílias, completamente vazia de amor ao outro.

Belo texto, parabéns!!!

Enoemis

Anônimo disse...

Isso é gravíssimo - acho que as instituições têm de agir com rigor. Já passou da hora de aplicar punição exemplar. Além da violência física, ainda fica a humilhação que abala o psicológico de qualquer pessoa. Esse tipo de ação é própria de quem vive fora do âmbito da sociedade ou da lei. Expulsão caberia muito bem nesses casos. Abração.

Priscila Canêdo disse...

Bom dia Marcelo! Realmente o que acontece a cada dia no que ediz respeito ao comportamento de jovens estudantes ou não, nos deixa apreensivo. Acredito que isso em sua maioria, seja reflexo dá má educação adquirida em casa. Como você mesmo citou em seu artigo, os pais são capazes e fazer tudo em nome de uma "proteção" digamos, aos filhos irresponsáveis, ou até mesmo poque não há um sobrenome de "berço". Eu já passei em 2004 por um trote desses rídiculos, quando egressei no curso de turismo na universidade federal de minha cidade, e digo que não me senti nem um pouco feliz, ou satisfeita, ao contrário, é algo humilhante. Neste ano agora, em agosto de 2011, retorno novamente a federal,no curso de Serviço Social, e não tenho mente participar dessa bárbarie toda, a não ser que seja digamos um "trote solidário" que é o que eu espero! Enfiam, acredito que em nossa sociedade os valores estejam invertidos, e que cabe não só aos educadores, como aos pais, grande responsabilidade para a inserção desses mesmos, para a contrução de uma sociedade melhor! abraços, Pri!

Luisa L. disse...

A tradição de "praxar" os novos alunos nas diversas faculdades é um dos hábitos mais idiotas que eu já vi. Não só idiota como também potencialmente perigoso. Sem qualquer dignidade.

Por mais que alguns grupos de alunos veteranos (os tais que têm carro, casa e o dinheiro suficientes para com 26 ou 27 anos ainda estarem a tempo inteiro na faculdade), insistam que se trata apenas da integração dos novos alunos a uma nova realidade, a violência de tais jogos é tão gritante que algumas escolas proíbem a "semana da recepção aos novos alunos". É assim que pomposamente a chamam. Por cá há até movimentos organizados "anti-praxe".

Abraços

joselito bortolotto disse...

Infelizmente, em todas as camadas sociais, por um motivo ou outro os pais estão despreparados para educar um filho .. então ....

José Fonte de Santa Ana disse...

Prezado professor Marcelo, são tantos os casos como este, que quase nos vencem pelo cansaço e passam a indignação da conta, exigindo ação de transformação já. Em estudantes e educadores com a interferencia direta das instituições de ensino para acabarem com este círculo vicioso.
Obviamente não outra vez criminalizando, prendendo e constrangendo nossos estudantes, que muitas das vezes entram nessa sem a noção do perigo a que se expõem e terceiros. Mas criando opções suadáveis para este tipo de comemoração.
Havendo pressão das entidades de ensino, o próprio Ministério da Educação assume esta questão como parte de sua política educacional.
Viçosa é um bom ponto de partida, porque além de uma instituição de ensino respeitada pela sua qualidade, doutorou Honoris Causa o ex-presidente Lula da Silva.
Abraços.
José Fonte de Santa Ana.