quarta-feira, 24 de março de 2010

De frente para o crime - caso Nardoni em metáforas

"Está lá o corpo estendido no chão, em vez de rosto, uma foto de um gol, em vez de reza, uma praga de alguém. E um silêncio servindo de amém./ O bar mais perto de pressa lotou, malandro junto com trabalhador, um homem subiu na mesa do bar e fez discurso pra vereador..."

Há uns dois anos toquei nessa questão e toco de novo. O que leva uma pessoa que trabalha, estuda, tem compromissos sociais etc a deixar sua casa em uma manhã, logo próximo ao horário do almoço, pegar ônibus, metrô, gastar dinheiro, andar, sentir calor com esse tempo maluco ou tomar chuva com as pancadas dessa época do ano a ir para a porta de um fórum só para gritar "justiça, justiça...." Pela televisão vi que havia gente até com banquinho para encontrar um bom lugar de onde pudesse gritar "justiça, justiça", ser filmado pela TV e ser ouvido por quem quer que seja.
Não entendo a motivação disso tudo. Não prego a indiferença, muito pelo contrário, mas essa mobilização me parece algo tão sem sentido, tão sem rumo. Ao chegar em casa, depois de sua manifestação de indignação, ficam indignados também com as atitudes do Dourado no BBB, ou com as traições do Marcos na novela. Trocamos o banquinho pela poltrona, trocamos as câmeras pelo anonimato das paredes de nossa casa e mantemos a torpe "solidariedade" sem sentido que move a tanta gente para a janela de frente pro crime. A música de João Bosco e Aldir Blanc nunca foi tão atemporal.

"Sem pressa foi cada um para o seu lado, pensando numa mulher ou num time. Olhei o corpo no chão e fechei minha janela de frente pro crime. Veio o camelê vender anel, cordão, perfume barato. baiana pra fazer um bom churrasco de gato..."

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