sábado, 22 de agosto de 2009

Solidão SA

Outro dia, vi em uma reportagem na TV (Profissão repórter) um serviço de acompanhante. Não se tratava de um serviço de sexo delivery, mas de amigo delivery. Um profissional oferecia para vender seu tempo como companhia a pessoas que, simplesmente, quisessem alguém para sair, jantar, conversar, dançar. Enfim, alguém para poder ter como amigo e companhia.
O que me chamou a atenção nisso tudo foi a dimensão do que se tornou a vida de algumas pessoas. Há uma impessoalização da existência que chegamos a ponto de contratar um amigo temporário em face do castelo de solidão que se formou em torno de nós. Os amigos de infância seguem seus caminhos, os filhos crescem e vão embora, os companheiros se afastam voluntariamente ou morrem e quando nos damos conta, eis a solidão que propicia um mercado de amigos de aluguel.
Não há espaço para se avaliar ou recriminar o que é isso, mas cabe uma reflexão de o que fizemos com nossa vida e, principalmente, em cidades grandes, como isso é tão comum, essa solidão SA. Cabe pensar até que ponto nos afastamos para nos proteger e nos isolamos do afeto do outro.
Moro em uma cidade pequena (75 mil habitantes) e ainda temos o costume de ir à casa de amigos a pé, de conversar nas calçadas, de ver o pessoal da terceira idade se aglomerando nas portas dos clubes para bailes. Ainda caminhamos nas ruas com os rótulos de filho do fulano, neto de sicrano... Essa sensação de identificação, parodiando Drummond, mesmo depois que a luz apagou, a festa acabou, acalmam os ânimos de qualquer José.
Dão uma identidade no meio da multidão e dispensam os amigos de aluguel.
Pelo menos por enquanto...

6 comentários:

LL disse...

Muito interessante a tua crónica. A solidão é acentuadamente mais notória nas grandes cidades, descaracterizadas por um mar de gente de todas as nacionalidades e credos. Mas é triste e não sei se compensador a utilização desses prestadores de amizade. Talvez seja, às vezes basta uma palavra simpática para nos dar "vida".

Abraços e parabéns pelo excelente texto.
Luísa

Ferrockxia disse...

é solidão é foda a idéia do cara foi maneira vender sua propria companhia

mta gente que eu conheço comprava todo dia uma hora de festa, de conversa etc,....

Evandro Varella disse...

Também vi a reportagem e me surpreendi com a capacidade dos jovens empreendedores em obter lucro no que antes era considerado como valor pessoal e inegociável.
Fico aqui pensando, o mundo tem mudado e se não mudarmos ficaremos prá trás.. aliás, digo de passagem, já me sinto tão ultrapassado com meus valores e sentimentos.
Forte abraço

Anna Paula disse...

Outro dia tivemosum encontro de família no Rio,onde a minha vive e fiz o seguinte comentário:"Sinto faltA de quando falávamos a mesma lingua..." quis dizer, qdo éramos crianças cujas brincadeiras se afinizavam,as brigas tinham intensidade e sentimentos e fazíamos parte de algo bem peculiar e íntimo... um clã.
As famílias estão distantes sem tempo de trocas afetivas pq têm pressa, têm compromissos e urgência de se ganhar algo que nem sabem o que. Se vc não tem metas nobres, espiritualidade, filhos ou livros....vc tá "a pé", amigo....
cultive raízes em vc, crie novos ideais e seja útil... essa receitinha é infalível.
bjs carinhosos!

Anônimo disse...

Morei por 15 anos em uma cidade de 20 mil habitantes e sei bem como você se sente. É uma delícia. Hoje, morando em uma cidade grande e tendo deixado os amigos para trás, vivencio essa solidão. A diferença é que sei lidar com ela, vou aonde quero, independente de ter ou não companhia.

Acrescento que, algumas pessoas ficam só por que são insuportáveis. Elas se encarregam de afastar as pessoas e acabam tendo que contratar esse tipo de serviço.

Beijocas

Patthy disse...

Li na infância "Pai me compra um amigo" e esse texto sobre a solidão me fez correlacionar a antiga reflexão sobre a condição do significado de estar só ou acompanhado. Parece mesmo que basta fingir pra si mesmo que não se está só... e pagar por isso consola, afinal há tempos poderíamos dizer que o dinheiro não compra tudo, mas agora a "realidade" foi modificada (ou estaria se tornando mais ideal?) e dependendo de quanto eu tenha posso ter quantos amigos eu quiser, sabendo que não existe exclusividade, e sim agenda, afinal devemos respeitar os horários dos amigos e não exigir deles mais do que podem oferecer... E em tempos de crise... emprego é emprego, ainda mais quando se é criativo e empreendedor... por falar nisso, alguém aí precisando de um amigo??? (:D)......

Beijos...

Patrícia.