domingo, 3 de maio de 2009

Papo de dentista


O rapaz chega na sala de espera. Na parede, quadros baratos, um sofá, uma música ambiente... uma mesinha com uma pilha de revistas de fofoca. Até hoje não entendo por que dentista acha que todo mundo se interessa pelo novo namorado da Ana Maria Braga e das férias da Suzana Vieira em Itaparica. 

Aguarda, aguarda... A porta se abre.

- Bom dia!

- Bom dia!

- Vamos entrar?

Acomoda-se na cadeira. Abre a boca. Prepara-se psicologicamente, pois, daí para frente, alguém assumirá o controle de seu maxilar, de sua salivação e falará coisas que, para quem está do lado de fora, se ouvir, vai pensar mil coisas (“olha, eu vou colocar, se doer eu tiro”, “relaxa que eu vou dar só uma picadinha lá no fundo...”). A conversa começa.

- E aí, tem visto o fulano (um conhecido em comum)?

- agrunfunfgn...

- É. Eu também não tenho visto há um tempo.

- ghurnerghh

- É mesmo. E você também está trabalhando fora?

- rgunoooorgue

- Ah.. ta. É. Aqui não tem muito campo.

- greunhunooonuun.

- É mesmo. Eu sempre falo isso para o meu filho. Mas garoto novo não ouve mesmo.

-gruuuuughuennuumm

- Ah.. deixa eu colocar um sugador aqui.

- huuummm

- Bom, eu vou começar. Se doer você fala que eu tiro.

- huum?

- Mas é isso aí.

- adredgunhiuen...

- É eu penso assim também, conclui o dentista.

 

E a conversa segue por mais uns 30 minutos entre um homem de branco e alguém que, aparentemente, domina um idioma alienígena.

O dentista termina, retira os objetos da boca e te libera para vagar com a boca dormente mundo a fora e, ocasionalmente, mordendo o próprio lábio sem sentir.

Experiência sempre bizarra.

 


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