quarta-feira, 12 de novembro de 2008

De paisagem, de Janelas e de culpados

Jonyedson tem 10 anos, mora numa favela na zona norte do Rio que é dominada, metade por traficantes, a outra metade por milicianos (nesse caso, um acordo de cavalheiros raro no ramo). Na escola dele, dois garotos, aviõezinhos do tráfico, foram executados porque tentaram passar a perna nos bandidos. Suspenderam as aulas no dia. Ordem do chefe da boca. Sua mãe, diarista, sustenta 6 filhos e, vez por outra, registra queixa na delegacia de proteção à mulher contra seu ex-marido que invade o barraco embriagado. Ele a espanca e toma-lhe os parcos trocados que recebe. Logo após, retira a queixa com medo de represálias de amigos do ex, todos ligados ao movimento no morro. Jonyedson assiste a tudo debaixo da cama para não apanhar também. Hoje de manhã, Jonyedson teve que esperar mais de 1 hora para sair de casa por causa de um tiroteio do pessoal da boca com os homens do BOPE. Na calçada, quando saiu, já estava aquela montoeira de sacos pretos cobrindo o que sobrou da ação.

Mas naquela manhã algo mudou. A mãe de Jonyedson foi chamada às pressas à escola. Por causa de uma discussão com um coleguinha de sala, seu filho empurrou uma cadeira e o menino caiu ralando o braço na altura do cotovelo.

O comportamento agressivo dele preocupou a orientadora pedagógica, psicopedagoga com formação também em sociologia, que pediu à mãe que cortasse os desenhos japoneses que passam na TV, pois eles são os principais responsáveis pela "explosão de violência" do garoto.

A mãe, então, passou a guardar a pequena TV em preto e branco do Paraguai adquirida em um camelô em cima do armário.

***

Quando fica em casa, Jonyedson passa as horas debruçado na janela vendo as pipas que sobem quando os PMs chegam.
Isso quando não tem tiroteio.

27 comentários:

Marcio Sarge disse...

Jonyedson mais que uma vítima do meio em que vive, é também, cria da grande mãe-gentil.
A pobreza que mancha sua vida com cores de sangue não é só resultado da pouca instrução de sua mãe. Ela germina nos senados dessa terra, onde a política se faz para seus iguais, onde a justiça se faz para seus iguais.
A cultura do "cada um por si" rega com lágrimas esse solo fértil onde se alimenta o hipocrisia e o preconceito.
Sempre foi mais fácil apontar a tv como motivador da violência, numa constante replicar da "arte".
Numas tarde qualquer, em ruas de terra, uma criança empunha uma arma de brinquedo imaginando ser um policial e talvez bandido mesmo. Ao longe uma assistente social-pedagoga-psicóloga vê toda a cena e diz da mãe que ao dar um arma de plástico para seu filho brincar pode estimula-lo à atos violentos.
Todo contexto é esquecido. Todo cenário de fundo é deixado e não vê que a corrupção que por vezes mesmo o cidadão honesto como ela colabora pra perpetuar-se, patrocina muito mais o espetáculo.

Flávia Damato disse...

Fico pensando d onde partem atitudes d repetição d violência, se há d fato um começo p tudo isso, se pequenos atos, como dar uma arma d brinquedo a uma criança, ou assistir a desenhos q mostram mortes, vingança, agressões gratuitas (sim, até o Pica-Pau mostra coisas do tipo), influenciam alguém da pior forma.

Eu brincava c/ armas d brinquedo, isso qdo não as fabricava c/ legos, como várias crianças (tinha até uma brincadeira chamada "Polícia e Ladrão"), onde "matávamos", "prendíamos"...

Por isso, acho q o "pano d fundo" da história d pessoas como o garoto Jonyedson, é exatamente o q ele, assim como outros iguais, vivenciam. Numa realidade como a descrita no texto é clara, brutal, chocante a repetição da violência. E q outro "olhar" o pequeno garoto (refiro-me à tantos q se encontram no mesmo lado) pode ter da vida?

P/ ele, é absolutamente normal resolver seus "problemas" pela violência, foi assim q aprendeu! E mudar essa questão, vai mto além das suas próprias forças; é preciso mto + do q desligar a televisão. Até pq, ele nem precisa dela, pois vivencia os desenhos japoneses no "reality show" macabro do seu bairro; e nem precisa sair d casa p/ isso.

Chegar-se ao ponto d passar por corpos cobertos por plásticos (ou não) como se fossem apenas sacos d lixo, e achar normal... normal, é lamentável!

A violência é uma questão mto complexa, e q deve, sim, ser colocada em prática urgentemente, pq já se foi discutido sobre ela exaustivamente. Falta atitude! D quem está dentro e, principalmente, d quem está fora desse contexto!

Bjs!

Homenzinho de Barba Mal feita disse...

É lamentavél que isso aconteça. Imagine a cabeça de uma criança tendo que conviver com essa situação, pai batendo na mãe, tiroteio no morro, amigos que hoje estão brincando com ele, amanhã podem estar debaixo de algum saco preto.
E a culpa é do desenho Japonês, que deixa as criançasmais violentas...

Marcus "OROCHI" disse...

Pois é... nessas horas o povo sempre coloca a culpa naquilo que não conhece direito, ao invés simplesmente olhar os verdadeiros culpados que estão bem na sua frente. Animês, RPG, videogames... sim, sempre eles os culpados. Afinal, são coisa do demo... que aliás, estratégicamente, nunca dá a cara a tapa. Bem danadinho esse Diabo... te contar, viu...

Lilian Devlin disse...

O triste disso tudo Marcelo é que essa situação se repete todo santo o dia, com os milhares de Jonyedsons pelo Brasil afora. E, mais triste ainda é sabermos que a "solução" encontrada por quem está do outro lado vai ser essa mesmo, achar "culpados" fora do contexto porque é muito mais fácil e dá menos trabalho e não dói... triste...
Bjs!

All3X disse...

Sempre admiro seus textos de cunho ideológico. São leves e, ao mesmo tempo, dizem tudo de que se precisa dizer.
O homem é reamente fruto do meio em que vive, vários são os fatores que o influenciam. E a base familiar conta muito.
Mas é justamente ela que mais sofre com a irresponsabilidade do Estado e demais grupos sociais (sim, não vamos colocar a culpa somente no Estado, pois se ele está lá, é porque alguém o colocou lá).
E assim, com o abismo social que se segue, a reprodução da violência se expande e solidifica.
Valeu,
All3X

Laila disse...

Sarcástico.
Realista.
Excelente.

Mas o melhor de tudo é o nome do colega: Jonyedson!!!

nardiohead disse...

é, as vezes seria bem melhor se existissem pokemons, ou pessoas controlassem robôs que destruiriam a raça humana, e os desenhos fossem o BOPE ou favelas, se bem que ja ta xei ode filmes brasileiros assim, alias é só isso que o brasil tem, só isso que o brasil faz sem se preocupar com nada, dá sempre um bom roteiro pra hollywood, a ficção é bem melhor.

Euzer Lopes disse...

Pra você ver como certos educadores vivem num universo paralelo.
E é em função dessa "realidade alternativa" que se deisfarçam problemas.
Creditar a violência ao que se vê na TV no mínimo é uma questão de falta de vergonha na cara de quem poderia fazer algo contra essa violência que existe embaixo das janelas.
Mas não faz porque se ousar, vai morrer.
Então, viver nesse caso é acreditar numa realidade paralela.
E assim caminha a humanidade

Henrique Hemidio disse...

Também sou contra desenho japonês...

... disse...

Extrapolando o pensamento para outras classes sociais que não apenas as menos favorecidas, vítimas maiores da violência diária, eu fico doente quando vejo psicólogos e pedagogos pondo a culpa da violência entre os jovens em desenhos animados ou jogos de videogame. É tão difícil ver que a culpa da violência, principalmente entre os filhinhos de papai que espancam empregadas domésticas em pontos de ônibus, está em pais ausentes e despreparados, que, por terem órgãos reprodutores e dinheiro no banco, acham que estão plenamente aptos a botar um ser humano no mundo? Falta ensinar a esse povo o que é ser humano.

Google disse...

só loco consegue viver nessas favela..

rosangela disse...

Mue Deus!!

Com a realidade em que el vive o que provoca a violencia são os desenhos...

Triste realidade de muitos brasieliros que não tem condições de morra em um lugar um pouco melhor .. São tantas atrocidades que acontece dia a pos dia e que só cada um que passa pela situação sabe o sofrimento e dar que passa ..

Abç.

Esconderijo disse...

É, dura realidade de um país chamado Brasil. O pior de tudo é que nos acostumamos com essa loucura. Infelizmente.

http://escondidin.blogspot.com/

Vlw>

Bruno Battousai disse...

É ruim, mas é verdade, !!!

Anônimo disse...

Isso me lembrou o filme: "Falção meninos do trafico" :D

Fábio Flora disse...

Os desenhos japoneses, as novelas, o Big Brother, o cinema hollywoodiano, o Bush, o Bin Laden, o Saddam – está mais do que na cara de que esses são os culpados por todas as mazelas do Brasil... Desigualdade social, incompetência das nossas autoridades, esfacelamento das nossas famílias? Qual o quê?

Michell Niero disse...

E tome pedra na cabeça dessa gurizada que se mete a criar blogs para falar dos outros.

Eu digo o seguinte. De um modo geral, nós adoramos "brincar de periferia". Pega bem vender uma imagem social, ouvir "música de preto" e andar pelas ruas dos Jardins (bairro paulistano de alta classe). No Rio, certamente há disso também.

Quando vamos para a sala de aula, essa brincadeira vira coisa séria,pois aquela ou aquele que seria responsável por formar gerações prontas para lutar mudanças geralmente não tem qualquer ligação com a comunidade que a escola presta serviços. Daí acontecem absurdos como este, onde o desenho japonês torna-se a saída mais fácil para se resolver um problema que vem desde o primeiro espelhinho aceito pelo índio.

As comunidades têm potencialidades inimagináveis. Acredito que a política pública não consegue enxergar isso. É preciso entender estes microcosmos para dar oportunidades para que elas crescam, formem professores, mestres, doutores. Gente nascida do lado do tráfico, do tiroteio, mas que consiga traduzir esta realidade e enxergar possibilidades de mudança.

Danilo disse...

assisti 174 esses dias e fica a impressão que o destino desses garotos não tem como ser outro se não a violência =(

Anônimo disse...

Pois é.
Incoerência das incoerências, não?
Mas essa é nossa realidade.
Abrçao

Gabriel Valladares disse...

Jonyedson, por incrível que pareça, um brasileiro.

http://cheirodegol.blogspot.com

Ellen Regina - facetasdemim disse...

Puxa, Marcelo!!!
Meu comentário mais cedo foi realmente verdadeiro. Eu havia ficado quase duas semanas tentando fazer coincidir sua vez de comentar lá no facetas, sem êxito, srsrsrs.

Agradeço por vc ter voltado lá, faz parecer q aquele meu esforço não foi em vão, srsrssr.

Quanto à adição do facetas no seu blog roll, nem sei como agradecê-lo! Eu recebo seu gesto com um sabor de prêmio conquistado...

Obrigada por apreciar meus textos. Obrigada por ter sido tão gentil com o meu blog.
Um beijo grande.
ellen regina.
www.facetasdemim.blogspot.com

Caio Rudá disse...

Hahaha para esses profissionais

Não sei como funciona para uma pedagoga ser promovida a psicopedagoga, mas imagino que ela tenha tido aulas sobre behaviorismo. Com certeza, essas ela filou...

Anna Paula disse...

Um aluno meu de 8 anos (na época em que eu dava aula numa escola perto do Morro Santa Marta)estava faltando demais... qdo apareceu na sala o interroguei sobre as faltas e ele disse que estava trabalhando pra comprar remédio pro avô que estava doente...
Trabalhando? em que?
Aviãozinho...
Entrei com todo aquele blá blá blá de lição de moral...
E ele me deixou sem palavras, confusa e perplexa com seu ponto de vista...
"Diante da morte não há certo ou errado... se eu não fizer assim vou fazer como? quero meu avô vivo.... só tenho ele..."
Putzzz que porrada...
Esses meninos não precisam de tvs e se as tiverem não farão a menor diferença na vida deles... eles vivem a violência ao vivo, a cores e na pele!

Wander Veroni disse...

Marcelo do céu...que texto maravilhoso é esse! Tô aqui com a minha boca caída no chão e admirado em frente a tela do computador. Quanta discussão interessante em torno da violência!

Quer maior exposição à violência, do que a própria realidade na qual vivemos? Ou ainda pior: a que Jonyedson vive? A televisão perto da janela é fichinha. :D

Abraço,

=]

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http://cafecomnoticias.blogspot.com

Daniela Figueiredo disse...

Oi, Marcelo. Soube do teu texto através do blog Abaixo o Presidente! Muito lindo o texto, profundo. A realidade retratada é bem diferente da minha, e é chocante. Muitas coisas passarão pela cabeça de Jonyedson ao olhar por aquela janela, que afetarão suas escolhas no futuro. Resta saber a maneira como ele irá lidar com a revolta.
Beijos, gostei dos teus textos.

Marcos Costa Melo disse...

hehe...perfeito. O Brasil está cheio de Jonyedsons...